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O que é Transtorno do Jogo (vício em apostas)?
Marcelo tem 29 anos, trabalha com tecnologia e começou a apostar em partidas de futebol como qualquer outro hobby: assistia aos jogos com os amigos e apostava valores pequenos só para “deixar a partida mais emocionante”. Por meses, aquilo pareceu apenas diversão.
Aos poucos, os valores foram crescendo. Depois de uma sequência de perdas em uma final de campeonato, ele apostou o dobro do que pretendia — convencido de que só precisava “recuperar o prejuízo” antes de parar. Não recuperou. Passou a acessar o aplicativo de apostas às escondidas dos colegas de trabalho e, mais tarde, da própria namorada. Prometeu a si mesmo, mais de uma vez, que aquela seria a última aposta do mês.
Marcelo não é uma pessoa real — é uma composição de situações comuns na prática clínica, criada apenas para ilustrar como o problema costuma começar. Mas a pergunta que ele levaria a uma primeira consulta é real, e talvez seja a mesma que trouxe você até aqui: será que isso já é um transtorno?
Nos últimos anos, as apostas esportivas online — popularmente chamadas de “bets” — deixaram de ser um hábito ocasional para se tornar parte do cotidiano de milhões de brasileiros. Dados do Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) mostram que mais de um quarto da população brasileira com 14 anos ou mais (25,9%) já apostou alguma vez na vida. Já 17,6% apostou nos 12 meses anteriores à pesquisa — o equivalente a mais de 28 milhões de pessoas (Madruga et al., 2025).
Com esse crescimento, uma pergunta se tornou cada vez mais frequente no consultório: “apostar com frequência é sinal de vício, ou ainda é só um hábito?” Este artigo responde a essa pergunta com base em critérios clínicos reconhecidos, começando pelo essencial: o que é, de fato, o Transtorno do Jogo.
Em poucas palavras
Transtorno do Jogo é uma condição de saúde mental reconhecida pelo DSM-5-TR, caracterizada pela perda de controle sobre o comportamento de apostar — não pela frequência ou pelo valor apostado isoladamente. No Brasil, 66,8% dos usuários de apostas esportivas online já apresentam indicadores de jogo de risco ou problemático. Existe tratamento eficaz, com maior respaldo científico para a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
Transtorno do Jogo: a definição clínica
O Transtorno do Jogo é classificado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), da American Psychiatric Association, como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos — a mesma categoria que reúne os transtornos por uso de substâncias. Isso significa que, do ponto de vista diagnóstico, apostar de forma compulsiva compartilha mecanismos com outras dependências, ainda que não envolva o consumo de uma substância química (APA, 2023).
Clinicamente, o transtorno é caracterizado por um padrão persistente e recorrente de comportamento relacionado às apostas, associado a prejuízos emocionais, sociais e financeiros significativos. O elemento central não é o valor apostado, nem a frequência isolada — é a perda progressiva de controle sobre o comportamento, mesmo diante de consequências negativas claras e reconhecidas pela própria pessoa.
Os critérios diagnósticos, em linguagem acessível
O DSM-5-TR descreve um conjunto de critérios que caracterizam o Transtorno do Jogo (veja também o Glossário de Termos — em breve). Entre os mais consistentemente descritos na literatura científica, destacam-se:
- Necessidade de apostar quantias cada vez maiores para atingir o mesmo nível de excitação — um fenômeno análogo à tolerância observada em outras dependências.
- Tentativas frustradas de reduzir ou parar de apostar.
- Inquietação ou irritabilidade diante da tentativa de diminuir ou interromper o comportamento.
- Preocupação frequente com apostas — planejar a próxima aposta, reviver apostas passadas, pensar em formas de conseguir dinheiro para apostar.
- Apostar como forma de lidar com sentimentos difíceis — usar o jogo para escapar de problemas ou aliviar humor deprimido, ansioso ou culpado.
- Chasing losses (perseguir perdas) — voltar a apostar, muitas vezes com valores maiores, na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.
- Mentir para familiares ou terapeutas sobre a extensão do envolvimento com apostas.
- Colocar em risco relacionamentos, emprego ou oportunidades importantes por causa das apostas.
- Depender de outras pessoas para resolver situações financeiras causadas pelo jogo.
Segundo o modelo diagnóstico, a presença de várias dessas características ao longo de um período de doze meses é o que caracteriza o quadro clínico — e não um episódio isolado de perda de controle (APA, 2023; Grubbs; Kraus, 2022; Sharma; Weinstein, 2025).
- 01
Perda de controle
Tentativas frustradas de reduzir ou parar de apostar, mesmo diante de consequências negativas.
- 02
Tolerância
Necessidade de apostar quantias cada vez maiores para atingir o mesmo nível de excitação.
- 03
Chasing losses
Voltar a apostar, muitas vezes com valores maiores, na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.
- 04
Prejuízos
Impactos emocionais, sociais e financeiros significativos, mesmo quando reconhecidos pela própria pessoa.
Na prática clínica, é comum observar que os critérios que mais surpreendem os próprios pacientes não são os financeiros, mas os comportamentais. Perceber que já mentiram sobre o próprio comportamento, por exemplo, costuma gerar mais desconforto do que reconhecer o valor perdido — isso acontece porque a vergonha em torno do tema cresce junto com o problema, e raramente porque a pessoa é desonesta por natureza.
Atenção
Este artigo tem finalidade educativa. Um diagnóstico formal de Transtorno do Jogo só pode ser feito por um profissional de saúde mental qualificado, em avaliação clínica individual — não por meio de listas de sintomas lidas na internet.
Qual a diferença entre apostar por diversão e ter Transtorno do Jogo?
Essa é, talvez, a dúvida mais comum de quem chega ao consultório. A resposta não está em quanto a pessoa aposta, mas em como o comportamento de apostar se relaciona com o resto da vida dela.
Resumo rápido
Não é o quanto você aposta que define o transtorno — é se você ainda escolhe apostar, ou se já não consegue escolher outra coisa.
Se você se identificou com o padrão de perda de controle descrito acima em mais de um item, isso não é, por si só, um diagnóstico — mas é um sinal consistente de que vale a pena buscar uma avaliação profissional.
Por que as apostas esportivas online aumentam esse risco
As chamadas “bets” têm características específicas que as diferenciam de outras formas de jogo, como o bingo tradicional ou as loterias: disponibilidade permanente (o aplicativo está sempre “aberto”), possibilidade de apostar em tempo real durante uma partida e rapidez entre a aposta e o resultado (Grubbs; Kraus, 2023). Além disso, o acesso constante a estatísticas, prognósticos e desempenho de atletas pode reforçar a sensação de que o resultado é, ao menos parcialmente, previsível ou controlável — uma distorção cognitiva conhecida como ilusão de controle (Ladouceur et al., 2001; Tavares, 2024). Vamos detalhar esse mecanismo no artigo Distorções Cognitivas no Jogo.
Estudos recentes associam diretamente a expansão das apostas esportivas online ao aumento de indicadores de jogo problemático, sobretudo entre pessoas jovens e mais expostas ao ambiente digital (Xu; Grubbs; Kraus, 2025).
O dado mais importante
66,8% dos usuários de plataformas de apostas esportivas online no Brasil apresentaram indicadores de jogo de risco ou problemático — uma proporção mais de duas vezes maior do que entre apostadores que não utilizam bets (26,8%) (Madruga et al., 2025; LENAD III).
Indicadores de jogo de risco ou problemático
Fonte: LENAD III (Madruga et al., 2025).
Nota: a regulamentação do setor de apostas esportivas de quota fixa no Brasil é tratada de forma mais completa pela Lei nº 14.790/2023 e pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda — uma informação complementar ao TCC de origem deste conteúdo, incluída aqui a partir de fontes oficiais (BRASIL, Secretaria de Prêmios e Apostas, gov.br/fazenda).
Como o transtorno aparece no dia a dia: exemplos práticos
Critérios diagnósticos, por mais precisos que sejam, podem parecer abstratos fora do consultório. Na prática clínica, o Transtorno do Jogo costuma aparecer em situações concretas como estas:
- A pessoa diz a si mesma “essa é a última aposta do mês” — e, dias depois, aposta novamente, sem ter planejado.
- Um valor que antes parecia alto (por exemplo, R$ 50) deixa de gerar qualquer desconforto, e o apostador só “sente” a aposta a partir de valores bem maiores.
- Surge o hábito de checar o aplicativo de apostas antes de dormir e assim que acorda, mesmo sem uma partida acontecendo naquele momento.
- Dinheiro destinado a contas fixas (aluguel, mercado, cartão) é usado para cobrir uma aposta, com a expectativa de “repor depois de ganhar”.
- Perguntas da família sobre gastos ou sobre o tempo no celular passam a gerar respostas evasivas ou mentiras — reflexo mais do desconforto que o comportamento já desperta do que de desonestidade propriamente dita.
- Há uma sensação recorrente de estar “devendo” uma vitória ao destino, como se perdas anteriores tornassem um ganho futuro mais provável — uma distorção cognitiva comum, que será aprofundada no artigo sobre ilusão de controle.
Nenhum desses exemplos, isoladamente, fecha um diagnóstico. Mas quando vários deles coexistem e se repetem ao longo de meses, o quadro se torna consistente com o que a literatura descreve como Transtorno do Jogo.
Mitos comuns sobre apostas e Transtorno do Jogo
Alguns mal-entendidos dificultam que pessoas com o transtorno reconheçam a própria situação — ou busquem ajuda a tempo. Vale desfazer alguns deles:
“Se eu ainda consigo pagar minhas contas, não tenho um problema.”
O impacto financeiro é apenas uma das dimensões do transtorno. Prejuízo emocional, tempo consumido, conflitos familiares e a própria dificuldade de parar — mesmo quando a pessoa “sabe que deveria” — já são, por si só, indicadores clínicos relevantes, mesmo que a situação financeira ainda esteja sob controle.
“Eu entendo de futebol/basquete, então minhas apostas são mais calculadas.”
Esse raciocínio é, na verdade, uma das distorções cognitivas mais estudadas na literatura sobre jogo problemático: a ilusão de que conhecimento técnico sobre um esporte reduz significativamente o papel do acaso no resultado de uma aposta (Ladouceur et al., 2001; Hu; Cai, 2025). Estatísticas e prognósticos ajudam a tomar decisões mais informadas, mas não eliminam a aleatoriedade inerente ao resultado esportivo.
“Transtorno do Jogo é coisa de quem já perdeu tudo.”
Na prática clínica, boa parte das pessoas que buscam ajuda ainda mantém emprego, relacionamentos e uma vida aparentemente organizada por fora. O sofrimento psicológico, a preocupação constante e as tentativas frustradas de controlar o comportamento costumam aparecer bem antes de uma perda financeira catastrófica — e é justamente nesse momento mais inicial que o tratamento tende a ser mais rápido e eficaz.
“É só uma fase, vai passar sozinho.”
Para uma parcela das pessoas que apostam, o uso realmente permanece recreativo. Mas quando os critérios diagnósticos já estão presentes, a literatura descreve o Transtorno do Jogo como uma condição que tende a seguir um curso crônico, com recaídas, quando não tratada — e não como algo que se resolve espontaneamente com o tempo (Tavares, 2024).
Transtorno do Jogo é “falta de força de vontade”?
Não. Essa é, provavelmente, a ideia mais equivocada — e mais prejudicial — sobre o tema. O modelo cognitivo-comportamental compreende o Transtorno do Jogo como resultado da interação entre crenças distorcidas, respostas emocionais e um padrão de reforço muito particular: as apostas operam por reforço intermitente, ou seja, ganhos ocasionais e imprevisíveis. Esse é um dos padrões de aprendizagem mais resistentes à extinção que existem (Pfund et al., 2023; Tavares, 2024), o que explica, em parte, por que “só ter força de vontade” raramente é suficiente para interromper o comportamento sem apoio especializado.
Além disso, o Transtorno do Jogo apresenta alta associação com outros quadros — depressão, ansiedade, uso de álcool e outras substâncias, e sintomas relacionados ao TDAH (Sharma; Weinstein, 2025) — o que reforça sua natureza de condição de saúde mental complexa, e não de “fraqueza de caráter”.
Uma dúvida muito frequente dos pacientes, logo nas primeiras conversas, é por que “simplesmente decidir parar” não funciona. A resposta costuma trazer mais alívio do que qualquer explicação técnica: não é uma questão de caráter, é o efeito de mecanismos emocionais e de aprendizagem que operam, em grande parte, fora do controle consciente — e é exatamente por isso que existe tratamento estruturado e eficaz para lidar com o problema.
- 01Aposta recreativa
- 02Perda de controle
- 03Prejuízos
- 04Diagnóstico clínico
- 05Tratamento
Será que vale a pena procurar uma avaliação?
Nas últimas semanas, quantas destas frases você reconhece em si mesmo — ou em alguém que você ama?
- Já tentei reduzir ou parar de apostar e não consegui manter a decisão.
- Tenho escondido de familiares ou amigos o quanto realmente aposto.
- Penso em apostas com frequência, mesmo fora dos momentos de jogo.
- Já apostei mais do que pretendia, tentando recuperar uma perda anterior.
- Sinto irritação ou ansiedade quando tento ficar um tempo sem apostar.
- Já usei dinheiro destinado a contas fixas (aluguel, mercado) para apostar.
- Já pedi dinheiro emprestado ou recorri a alguém para cobrir perdas com apostas.
- Apostar deixou de ser diversão e passou a parecer uma necessidade.
Este questionário não faz diagnóstico e não substitui avaliação profissional. Se você reconheceu várias dessas frases, o tópico a seguir é para você.
Quando buscar ajuda profissional
Se os sinais descritos neste artigo soam familiares — para você ou para alguém próximo —, o próximo passo não precisa ser dramático. Uma conversa inicial com um psicólogo especializado já permite entender a extensão real da situação e as opções de tratamento disponíveis. A literatura científica mais robusta atualmente aponta a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) como a abordagem com maior respaldo empírico para o tratamento do Transtorno do Jogo — assunto que aprofundamos no artigo TCC para Transtorno do Jogo: como funciona o tratamento (Cowlishaw et al., 2012; Pfund et al., 2023).
Quando procurar ajuda
- Os sinais persistem há várias semanas.
- Você já tentou parar sozinho e não conseguiu manter a decisão.
- As apostas já afetam finanças, trabalho ou relacionamentos.
- Mesmo na dúvida: uma conversa inicial não compromete a nada, e pode trazer clareza.
Perguntas frequentes
Apostar todo fim de semana já é sinal de vício?
Não necessariamente. Frequência isolada não define o transtorno — o que importa é se há perda de controle, necessidade de valores crescentes, tentativas frustradas de parar e prejuízos que persistem apesar disso. Uma avaliação profissional é a forma mais segura de esclarecer a dúvida.
Transtorno do Jogo é reconhecido oficialmente como um problema de saúde?
Sim. É classificado no DSM-5-TR, o principal manual diagnóstico usado por psiquiatras e psicólogos no mundo todo, na categoria de transtornos relacionados a comportamentos aditivos.
Só quem perde muito dinheiro tem Transtorno do Jogo?
Não. O impacto financeiro costuma ser o sinal mais visível, mas o transtorno também envolve sofrimento emocional, conflitos familiares, isolamento social e dificuldades para interromper o comportamento — mesmo em valores que, isoladamente, não pareceriam alarmantes.
Existe um exame que diagnostica o Transtorno do Jogo?
Não existe exame de sangue ou de imagem. O diagnóstico é clínico, feito por meio de entrevista estruturada e critérios reconhecidos (como os do DSM-5-TR), conduzida por um profissional de saúde mental qualificado.
Vício em apostas esportivas é igual a vício em outros jogos de azar, como caça-níqueis ou cassino?
O diagnóstico (Transtorno do Jogo) é o mesmo, mas as apostas esportivas online têm características — disponibilidade constante, apostas em tempo real, ilusão de conhecimento técnico sobre o esporte — que a literatura recente associa a maior risco de engajamento problemático em comparação a modalidades tradicionais.
Mais dúvidas? Veja a Central de Perguntas Frequentes completa — em breve, organizada por público (pacientes, familiares, profissionais e imprensa).
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- Central de Perguntas FrequentesEm breve
Uma conversa inicial pode ajudar a clarear muita coisa
Ler sobre critérios diagnósticos é só o começo. Entender a sua própria situação, com calma e sem julgamento, é outra etapa — e não precisa ser feita sozinho. Uma primeira consulta não é um compromisso com um tratamento longo: é uma oportunidade de conversar abertamente sobre o que você está vivendo e entender, com clareza, quais caminhos fazem sentido para o seu caso.
Thiago Vendramini atende presencialmente em São Paulo (Vila Madalena) e online para todo o Brasil. Se quiser dar esse primeiro passo, é só chamar no WhatsApp — sem burocracia, sem julgamento.
Escrito por Thiago Vendramini, psicólogo clínico com mais de 20 anos de experiência, especialista em dependências químicas e Transtorno do Jogo. Saiba mais →
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