THIAGO VENDRAMINI
Duas cadeiras de madeira frente a frente em uma sala vazia e iluminada por luz natural, sugerindo uma conversa

Foto: Tuğçe Açıkyürek, via Unsplash (Unsplash License — uso gratuito para fins comerciais e não comerciais).

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Tratamento para Transtorno do Jogo: Como Funciona a Terapia Cognitivo-Comportamental

Transtorno do JogoThiago Leão Vendramini — Psicólogo20 min de leitura

Sim, o Transtorno do Jogo tem tratamento. Existem abordagens com respaldo científico que podem reduzir a gravidade dos sintomas e ajudar a pessoa a recuperar maior controle sobre o próprio comportamento. Isso não significa cura garantida, nem um caminho igual para todo mundo — significa que, diferente do que muita gente pensa quando chega ao consultório, esse não é um problema para se resolver sozinho por força de vontade.

Entre as abordagens estudadas, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é hoje a que reúne o maior volume e a maior consistência de evidência científica. Este artigo explica o que isso significa na prática: como um tratamento começa, o que a TCC realmente faz sessão a sessão, o que a ciência sustenta com mais e com menos confiança, e o que esperar de um processo terapêutico real — sem promessas fáceis.

Em poucas palavras

Existe tratamento para o Transtorno do Jogo, com respaldo científico — a certeza da evidência disponível varia de baixa a moderada, não é definitiva. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é hoje a abordagem com maior volume e consistência de evidência, recomendada como primeira linha pela diretriz do NICE (2025). Não existe fórmula única nem cura garantida: o que a ciência sustenta é um conjunto de estratégias capazes de reduzir a gravidade do quadro e ajudar a recuperar controle sobre o comportamento de apostar.

Transtorno do jogo tem tratamento?

Tem. Uma das principais diretrizes clínicas recentes sobre o tema, publicada em 2025 pelo NICE (National Institute for Health and Care Excellence, o órgão britânico de referência em diretrizes de saúde), recomenda tratamento psicológico estruturado como primeira linha — com a TCC ocupando o centro dessa recomendação.

Isso não quer dizer que exista uma fórmula única ou um número garantido de sessões até a “cura”. A literatura científica sobre Transtorno do Jogo ainda é mais nova e mais limitada do que a de outros transtornos mentais estudados há décadas, e as próprias diretrizes reconhecem isso: a certeza da evidência disponível varia de muito baixa a moderada, não de alta a conclusiva. O que existe, com razoável solidez, é um conjunto de estratégias terapêuticas capazes de reduzir a gravidade do quadro, ajudar a pessoa a recuperar controle sobre o comportamento de apostar e prevenir novos episódios — o que já representa uma diferença expressiva em relação a não tratar.

Se você ainda não tem certeza se o que descreve em si mesmo, ou em alguém próximo, corresponde de fato a um Transtorno do Jogo, o artigo O que é Transtorno do Jogo? Sintomas, Causas e Diagnóstico detalha os critérios diagnósticos reconhecidos pelo DSM-5-TR.

Por que “é só parar de apostar” não resolve

Essa frase costuma vir de quem nunca vivenciou o problema de perto — e também, com frequência, da própria pessoa que aposta, antes de perceber que a decisão consciente de parar não é suficiente. Três mecanismos ajudam a explicar por quê.

Reforço intermitente

As apostas não recompensam de forma previsível. Ganhos ocasionais e imprevisíveis criam um padrão de aprendizagem conhecido, na psicologia comportamental, como reforço intermitente — o mesmo princípio que torna caça-níqueis e loterias tão difíceis de abandonar. Comportamentos reforçados dessa forma tendem a ser mais resistentes à extinção do que comportamentos recompensados de maneira previsível: mesmo depois de muitas perdas seguidas, a expectativa de que “a próxima pode ser a boa” continua ativa, porque a experiência de apostar já ensinou, ao longo de repetidas tentativas, que uma vitória pode aparecer a qualquer momento, sem aviso.

Chasing losses e ilusão de controle

Chasing losses — perseguir perdas — é o padrão de voltar a apostar, muitas vezes com valores maiores, na tentativa de recuperar dinheiro perdido. É um dos comportamentos mais característicos do Transtorno do Jogo e um dos que mais aprofundam o prejuízo financeiro, porque tende a intensificar tanto o valor quanto a frequência das apostas seguintes.

Ele se alimenta de uma distorção cognitiva chamada ilusão de controle: a crença de que é possível prever ou influenciar um resultado que, na realidade, depende de acaso. Nas apostas esportivas isso é reforçado pelo acesso constante a estatísticas e prognósticos, que podem dar a falsa sensação de que conhecimento técnico sobre um esporte reduz significativamente o papel do imprevisível.

Um fenômeno relacionado, e frequentemente mal explicado, é o do “quase acerto” — uma aposta que chegou perto do resultado esperado, mas não se confirmou. A proximidade percebida costuma aumentar a sensação subjetiva de “estar quase ganhando”, mesmo quando, dependendo da modalidade de aposta, essa proximidade não representa nenhum aumento real na probabilidade de acerto na tentativa seguinte. Ou seja: o problema não é que a pessoa “calcula errado” — é que a experiência de quase ganhar é subjetivamente parecida com a de estar perto de ganhar de verdade, mesmo quando os dois eventos não têm relação estatística entre si.

Craving, emoção e ambiente

Vontade intensa de apostar (craving) costuma aparecer associada a estados emocionais específicos — tédio, ansiedade, frustração, ou justamente a euforia de uma vitória recente — e à disponibilidade constante das plataformas digitais, que estão sempre a um toque de distância. A combinação desses fatores explica por que decidir parar, por si só, raramente é suficiente sem uma estratégia estruturada para lidar com esses gatilhos quando eles aparecem.

O que acontece no início do tratamento

Antes de qualquer técnica específica, o início do tratamento é dedicado a uma avaliação clínica cuidadosa: padrão de apostas (frequência, tipos, valores envolvidos), principais perdas e consequências já vividas, gatilhos situacionais e emocionais, e a função que o comportamento vem cumprindo (fuga de um problema, busca de excitação, alívio de ansiedade, entre outras possibilidades).

A avaliação também investiga o nível de motivação para mudança — que, como veremos adiante, raramente é tudo-ou-nada —, rastreia possíveis comorbidades (ansiedade, depressão, uso de álcool ou outras substâncias, sintomas de TDAH), avalia risco (incluindo ideação suicida, que merece atenção direta em casos de prejuízo financeiro grave) e considera o contexto familiar e financeiro da pessoa. Essa etapa não é burocrática: é o que permite que o tratamento seguinte seja desenhado para a situação real de quem está sendo atendido, e não para um perfil genérico de “quem aposta demais”.

Como funciona a TCC para Transtorno do Jogo

Esta é a parte central do artigo, e também a que mais se presta a mal-entendidos. A TCC não é uma sequência fixa de técnicas aplicadas na mesma ordem para todo mundo — é um conjunto de estratégias, escolhidas e combinadas conforme o caso, organizadas em torno de uma ideia central: o comportamento de apostar se mantém por causa da interação entre pensamentos, emoções e reforços comportamentais, e é possível intervir nessa cadeia em mais de um ponto.

Mapeando gatilhos e o ciclo pensamento–emoção–comportamento

Uma das primeiras coisas que a terapia faz é ajudar a pessoa a identificar, com detalhe, o que costuma preceder uma aposta. Não apenas “estresse”, mas o gatilho específico: uma notificação do aplicativo, o fim de um dia difícil no trabalho, uma discussão em casa, um momento de tédio sozinho à noite.

Considere uma situação fictícia, só para ilustrar: uma pessoa sai de uma reunião tensa no trabalho, sente uma mistura de irritação e inquietação, e o pensamento automático que surge é “preciso de alguma coisa para desligar a cabeça”. Apostar, nesse momento, não é sobre dinheiro — é uma tentativa (ineficaz a médio prazo, mas eficaz por alguns minutos) de regular um estado emocional desconfortável. A TCC trabalha exatamente essa cadeia: o gatilho (a reunião tensa), o pensamento automático (a necessidade de “desligar”), a emoção associada, e a escolha comportamental que se segue — tornando esse processo, que normalmente acontece de forma quase automática, visível o suficiente para que a pessoa possa intervir nele.

Reestruturação cognitiva

Este componente trabalha diretamente as distorções que sustentam o comportamento de apostar. Um exemplo comum, no estilo do que costuma aparecer em sessão: a pessoa perde R$ 500 em uma noite e pensa “se eu colocar mais R$ 200 consigo recuperar”. A TCC não trabalha apenas a decisão de apostar novamente — trabalha a interpretação que torna essa decisão aparentemente racional naquele momento. Por que “recuperar” parece urgente? Por que R$ 200 parece um valor pequeno diante de R$ 500 já perdidos, quando na prática é dinheiro adicional sendo arriscado? O que aconteceria, concretamente, se a pessoa simplesmente aceitasse a perda daquela noite?

A mesma pessoa, dias depois, pode ter uma aposta que quase deu certo e pensar “estou quase acertando, é questão de tempo”. A terapia ajuda a reconhecer esse tipo de interpretação no momento em que ela acontece — não para convencer a pessoa de que “está errada” de forma abstrata, mas para que ela perceba, na prática, como esse pensamento específico costuma preceder a próxima aposta.

Controle de estímulos e redução do acesso

Ao lado do trabalho cognitivo, a TCC também atua de forma prática sobre o ambiente que facilita o comportamento: reduzir a exposição a aplicativos de apostas, desativar notificações, usar ferramentas de autoexclusão oferecidas pelas próprias plataformas, e substituir horários de maior risco (como o fim da noite, sozinho) por atividades alternativas que ofereçam alguma fonte real de prazer ou engajamento. A ideia não é eliminar toda fonte de prazer da vida da pessoa — é reduzir, de forma concreta, as oportunidades de contato com o gatilho enquanto as outras estratégias ainda estão sendo consolidadas.

Estratégias relacionadas ao dinheiro

Medidas práticas de organização financeira costumam fazer parte do plano: bloqueio ou limite de cartões, restrição de acesso a determinados aplicativos de pagamento, e, quando pertinente, participação de um familiar de confiança na administração do dinheiro por um período combinado. Essas medidas não substituem a psicoterapia — funcionam como uma rede de proteção enquanto os mecanismos cognitivos e emocionais mais profundos ainda estão em tratamento.

Individual ou em grupo?

Vale uma nota de precisão, porque é fácil confundir dois tipos de informação diferentes. A diretriz do NICE (2025) recomenda a TCC em grupo como abordagem inicial, com a TCC individual como alternativa quando o grupo não é viável ou não é a preferência da pessoa — mas essa é uma recomendação de guideline, não a mesma coisa que um corpo robusto de estudos comparando diretamente os dois formatos entre si. Uma revisão recente sobre TCC para jogo reuniu estudos em diferentes formatos (presencial, on-line, por material impresso) sem encontrar, na literatura reunida, uma comparação direta e conclusiva entre formato individual e grupal. Na prática clínica, a escolha costuma depender mais da disponibilidade e do conforto da pessoa com exposição em grupo do que de uma diferença de eficácia comprovada entre os dois formatos.

Prevenção de recaída

Esse componente é tratado com mais detalhe adiante, na seção sobre lapsos e recaídas — mas vale adiantar que ele não é algo que acontece só “no fim” do tratamento. Desde as primeiras sessões, a TCC já trabalha a identificação de situações de risco futuras e o desenvolvimento de respostas alternativas a elas, justamente para que uma dificuldade pontual não vire um retrocesso completo.

O que a literatura sustenta, e o que ainda é hipótese razoável

Vale ser preciso aqui: a literatura científica não isolou, por meio de estudos que comparam componentes entre si, qual dessas técnicas contribui mais para o resultado final — os próprios autores de revisões recentes apontam isso como uma lacuna a ser preenchida por pesquisas futuras. O que se pode afirmar com mais segurança é que reestruturação cognitiva, controle de estímulos e prevenção de recaída são componentes frequentes nos protocolos de TCC estudados na literatura, não que exista prova de que sejam individualmente superiores a outras estratégias dentro do mesmo protocolo. Isso não os torna menos relevantes — apenas significa que a evidência atual sustenta o pacote de intervenções como um todo, mais do que qualquer peça isolada dele.

Este panorama resume, em linguagem acessível, o que descrevo com mais profundidade científica na minha revisão de literatura sobre o tema: Intervenções Cognitivo-Comportamentais no Transtorno do Jogo.

Abstinência total é sempre o objetivo do tratamento?

Não necessariamente — e vale separar três coisas que costumam se misturar nessa pergunta: o que um estudo específico mostrou, o que diretrizes contemporâneas recomendam, e o que, na prática, é uma decisão clínica compartilhada.

Um estudo de Ladouceur, Lachance e Fournier acompanhou pessoas em tratamento por 12 meses e comparou dois grupos: quem escolheu abstinência total como meta e quem escolheu controle (redução do comportamento, sem necessariamente parar por completo). Os dois grupos apresentaram ganhos terapêuticos reais. Quem buscava abstinência relatou mais sucesso em respeitar os próprios limites e maior senso de autoeficácia; quem buscava controle apostou com mais frequência durante o acompanhamento, mas a maioria manteve a meta de controle ao longo do tempo, sem abandoná-la. É importante ser preciso sobre o alcance disso: é um único estudo, com um desenho específico — não uma comparação definitiva entre as duas abordagens, e não deve ser generalizado como se resolvesse a questão para todos os perfis de gravidade.

Sobre o que diretrizes clínicas atuais recomendam de forma mais ampla: de modo geral, elas enfatizam avaliação individualizada e decisão compartilhada com a pessoa em tratamento, mais do que prescrever uma meta única e universal — sem que isso signifique uma recomendação explícita a favor do controle como alternativa equivalente à abstinência em todos os casos.

Na prática, isso se traduz em uma conversa: a meta do tratamento — abstinência total ou redução controlada — costuma ser discutida e ajustada considerando gravidade do quadro, comorbidades, histórico de tentativas anteriores e preferência da pessoa, em vez de imposta de forma padronizada logo na primeira sessão. Não existe, hoje, uma resposta cientificamente definitiva sobre qual meta é superior para todos os casos.

O papel da motivação e da ambivalência

Uma das situações clínicas mais comuns — e mais mal compreendidas por quem está de fora — pode ser resumida assim: “quero parar de perder dinheiro, mas não sei se quero parar de apostar.” Isso não é contradição nem falta de caráter. É ambivalência genuína, e reconhecê-la como tal, em vez de tratá-la como resistência a ser vencida, muda completamente a forma como o tratamento avança.

Faz sentido, quando se olha de perto: apostar pode estar cumprindo uma função real na vida da pessoa — momento de emoção em uma rotina monótona, forma de socializar com amigos, distração de um problema que parece maior do que se consegue lidar de outra forma. Pedir para alguém abrir mão disso de uma vez, sem substituir essa função por nada, tende a gerar mais resistência, não menos. A pessoa pode reconhecer plenamente os prejuízos financeiros e ainda assim sentir relutância genuína em abandonar o comportamento — e isso é psicologicamente coerente, não um sinal de que “ainda não está pronta para o tratamento”.

É aqui que entra a Entrevista Motivacional, uma abordagem que busca fortalecer a motivação para mudança por meio de uma postura colaborativa e não confrontativa, em vez de argumentar ou convencer a pessoa de fora para dentro. Na prática, isso envolve explorar abertamente os dois lados da ambivalência — o que apostar oferece, e o que já custou — sem pressa para resolver a contradição antes que a própria pessoa chegue lá.

Vale uma ressalva honesta: a evidência científica sobre a Entrevista Motivacional isolada, sem combinação com outras técnicas, é mais modesta do que a de protocolos completos de TCC — uma meta-análise recente não encontrou efeito estatisticamente significativo da Entrevista Motivacional isolada nos desfechos principais de gravidade do jogo. Isso não significa que ela seja inútil; significa que seu papel mais bem estabelecido na literatura é como parte inicial ou complementar de um tratamento mais amplo — ajudando a fortalecer o engajamento antes ou durante a TCC —, e não como tratamento autônomo e suficiente por si só.

Família e rede de apoio

Familiares costumam querer ajudar, e nem sempre é simples saber onde a ajuda termina e onde começa algo que, sem intenção, dificulta a mudança. Vale diferenciar quatro coisas que costumam se confundir:

Apoio emocional — estar disponível, comunicar-se sem julgamento moralista, reconhecer que a pessoa está lidando com um problema de saúde, não com um defeito de caráter — costuma ajudar de forma consistente, sem custo colateral relevante.

Proteção financeira combinada — participar, com consentimento da pessoa em tratamento, da administração temporária do dinheiro (acesso a contas, limites em cartões) enquanto o tratamento avança — é uma medida prática que muitos protocolos incorporam, e que tende a reduzir a exposição a novas perdas durante a fase mais vulnerável do processo.

Estabelecimento de limites claros — comunicar, sem ameaça nem punição, o que a família está e não está disposta a sustentar — é diferente de controlar. Limites protegem a relação; controle excessivo tende a gerar mais sigilo, não menos apostas.

Pagamento repetido de dívidas é o ponto que exige mais cuidado. Quitar, de forma automática e recorrente, cada dívida gerada pelas apostas pode reduzir consequências imediatas do comportamento e, em determinados casos, dificultar o estabelecimento de limites mais adiante — mas isso não é uma regra fixa nem uma garantia de que o padrão vai se manter; depende do contexto, da relação familiar e do estágio do tratamento. Isso não é uma crítica a famílias que já fizeram isso: é, com frequência, a resposta mais humana e mais imediata diante do medo de ver alguém que se ama em dificuldade grave. Vale reconhecer, com clareza e sem culpa retroativa, a diferença entre socorrer uma vez, dentro de um plano combinado, e sustentar de forma recorrente um padrão sem que isso faça parte de uma estratégia terapêutica conversada.

Medicamentos: o que a evidência diz

Não existe, até o momento, nenhum medicamento aprovado especificamente para o tratamento do Transtorno do Jogo. Isso costuma surpreender pacientes e familiares que esperam uma solução farmacológica direta, como existe para outras condições.

O que a pesquisa vem testando, com resultados ainda modestos, são medicamentos originalmente desenvolvidos para outras condições — antagonistas opioides (como a naltrexona), antidepressivos e estabilizadores de humor. Entre essas opções, a naltrexona é a que reúne o sinal mais consistente, mas mesmo essa evidência é classificada, pela revisão Cochrane mais recente sobre o tema, como de certeza baixa — baseada em poucos estudos com poucos participantes. A diretriz do NICE (2025) reflete essa cautela: recomenda considerar a naltrexona apenas para pessoas que já passaram por tratamento psicológico sem sucesso suficiente, e exclusivamente sob acompanhamento de um médico especialista, com monitoramento de função hepática e renal.

Na prática, isso significa que medicação não é, hoje, uma primeira opção nem um substituto para a psicoterapia — mas uma avaliação psiquiátrica pode ser pertinente em casos de comorbidade significativa (depressão, ansiedade, transtorno bipolar, uso de substâncias) ou quando o tratamento psicológico isolado não produziu a melhora esperada. Essa decisão cabe sempre a um médico, nunca a uma escolha feita por conta própria.

Lapso, recaída e chasing losses: três coisas diferentes

Esses três termos aparecem, com frequência, como se fossem sinônimos — e não são. Diferenciá-los ajuda a entender melhor tanto o processo terapêutico quanto os próprios contratempos que fazem parte dele.

Lapso é um episódio isolado e pontual de apostar depois de um período de abstinência ou de controle bem-sucedido — uma única vez, sem que o padrão anterior de perda de controle necessariamente retorne. Recaída, por outro lado, descreve um retorno mais consistente ao padrão problemático anterior — não um episódio isolado, mas uma reinstalação do ciclo. Vale registrar, com honestidade, que a própria literatura científica reconhece falta de consenso sobre onde exatamente termina um lapso e começa uma recaída no contexto específico do jogo — a linha divisória não é tão nítida quanto o vocabulário sugere.

Chasing losses, como já descrito, é outra coisa: é o comportamento de voltar a apostar, especificamente para tentar recuperar uma perda recente, dentro do próprio episódio de jogo ou logo em seguida a ele. Pode acontecer dentro de um único lapso, pode fazer parte de uma recaída mais ampla, ou pode até ocorrer, embora com menor gravidade, em alguém que ainda não preenche critérios para o transtorno. Tratá-lo como sinônimo de recaída confunde um mecanismo específico (a tentativa de recuperação) com um padrão mais amplo de retorno ao problema.

Um lapso significa que o tratamento fracassou?

Não, e tratar cada deslize como prova de fracasso costuma ser mais prejudicial do que o próprio deslize. A prevenção de recaída, como componente da TCC, parte exatamente do princípio de que situações de risco vão continuar aparecendo depois do tratamento — o objetivo não é blindar a pessoa de toda tentação para sempre, mas equipá-la para reconhecer sinais de alerta cedo e ter uma resposta já ensaiada quando eles aparecem.

Isso não significa normalizar consequências graves ou tratar recaídas repetidas como algo sem importância — significa reconhecer que o curso do Transtorno do Jogo é heterogêneo, com risco de oscilações ao longo do tratamento em boa parte das pessoas, sem que isso invalide o processo inteiro. Um lapso é informação útil sobre o que ainda precisa de trabalho, não um veredito sobre a capacidade da pessoa de melhorar.

Quando procurar ajuda profissional

Alguns sinais indicam que vale buscar uma avaliação, mesmo sem certeza sobre o diagnóstico:

  • Dificuldade persistente de controlar ou reduzir as apostas, apesar de tentativas reais de fazer isso.
  • Padrão recorrente de perseguir perdas com apostas maiores.
  • Ocultação do comportamento de familiares ou pessoas próximas.
  • Dívidas relacionadas às apostas, mesmo que ainda administráveis.
  • Prejuízo perceptível no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos.
  • Sofrimento emocional associado ao comportamento — ansiedade, culpa, irritabilidade.
  • Tentativas anteriores de parar, sem sucesso sustentado.

Nenhum desses sinais isolado fecha um diagnóstico — mas a combinação de vários deles, ao longo de semanas ou meses, já é motivo suficiente para uma conversa com um profissional.

Como funciona a psicoterapia, na prática

Um processo terapêutico para Transtorno do Jogo costuma começar com as sessões de avaliação já descritas, seguidas por um período de trabalho mais intenso — em geral, semanal — focado nas estratégias discutidas neste artigo, com ajustes conforme a resposta da pessoa. Ao longo do tempo, a frequência das sessões costuma se espaçar, e o foco se desloca de conter a crise inicial para consolidar mudanças e prevenir recaídas a médio e longo prazo.

Não existe um número universal de sessões — isso depende da gravidade do quadro, de comorbidades e da resposta individual. O que existe, com razoável consistência, é uma estrutura reconhecível: avaliação, intervenção ativa sobre pensamentos e comportamentos, e manutenção.

  1. 01Avaliação
  2. 02Intervenção ativa
  3. 03Manutenção
Da avaliação inicial à fase de manutenção: uma estrutura reconhecível, não um roteiro fixo igual para todos os casos.

Perguntas frequentes

Transtorno do jogo tem cura?

A pesquisa mais recente sobre o curso do transtorno mostra um quadro mais heterogêneo do que a ideia de uma condição sempre crônica e progressiva. Parte relevante das pessoas com histórico de Transtorno do Jogo apresenta remissão ao longo do tempo — algumas até sem tratamento formal —, enquanto uma parcela, sobretudo em quadros mais graves, mantém um curso mais persistente. O que a literatura descreve com mais consistência é que o risco de recaída permanece elevado em qualquer pessoa que já teve o transtorno, mesmo após melhora significativa. Isso não é uma promessa de cura definitiva, mas também não é uma sentença de cronicidade inevitável — o realista é falar em melhora sustentada e possível remissão, com atenção contínua ao risco de recaída.

É preciso parar completamente de apostar para começar o tratamento?

Não. A avaliação inicial não exige abstinência prévia, e como este artigo detalhou, a própria meta do tratamento — abstinência total ou redução controlada — costuma ser discutida com a pessoa ao longo do processo, não como pré-requisito para procurar ajuda.

Quanto tempo pode durar a TCC para Transtorno do Jogo?

Varia conforme a gravidade do quadro, comorbidades e resposta individual — não existe um número padrão sustentado pela literatura. Diretrizes clínicas descrevem protocolos estruturados de algumas semanas para a fase mais ativa do tratamento, mas o acompanhamento total costuma se estender além disso, especialmente na fase de prevenção de recaída.

A família deve assumir o controle do dinheiro da pessoa em tratamento?

Não de forma automática ou unilateral. Medidas de proteção financeira combinadas — com consentimento da pessoa e por um período definido — costumam ajudar durante a fase mais vulnerável do tratamento. Assumir o controle financeiro de forma permanente e sem diálogo é outra situação, e tende a gerar mais conflito do que proteção a longo prazo.

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Escrito por Thiago Vendramini, psicólogo clínico com mais de 20 anos de experiência, especialista em dependências químicas e Transtorno do Jogo. Saiba mais →

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