THIAGO VENDRAMINI
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Terapia do Esquema: O Que É, Como Funciona e Em Que Se Diferencia da TCC

Terapia do EsquemaThiago Leão Vendramini — Psicólogo23 min de leitura

Você entende racionalmente que aquele padrão te faz mal — e mesmo assim continua se vendo nele. Escolhe, de novo, alguém emocionalmente indisponível. Sente que precisa agradar todo mundo para não ser rejeitado. Interpreta um comentário pequeno como uma crítica devastadora. Evita pedir ajuda, mesmo desejando profundamente ser cuidado. Se esse tipo de repetição soa familiar, este artigo explica um modelo terapêutico desenvolvido justamente para esse tipo de situação: a Terapia do Esquema.

A Terapia do Esquema (Schema Therapy) é uma abordagem psicoterapêutica desenvolvida pelo psicólogo americano Jeffrey Young a partir do final dos anos 1980, como uma extensão da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Este artigo explica o que ela propõe, de onde vem, como se relaciona com a TCC e — com o mesmo rigor já aplicado aqui a outros temas — o que a evidência científica hoje realmente permite afirmar sobre sua eficácia.

Em poucas palavras

A Terapia do Esquema parte da ideia de que padrões emocionais e relacionais repetitivos — os “esquemas” — podem se desenvolver a partir da interação entre temperamento e experiências precoces, incluindo a forma como necessidades emocionais básicas foram atendidas, e continuam ativos mesmo quando a pessoa já entende, racionalmente, que aquele padrão não faz mais sentido. Nasceu como extensão da TCC voltada a transtornos de personalidade e padrões crônicos. A evidência científica hoje é mais consolidada para transtornos de personalidade — sobretudo o Transtorno de Personalidade Borderline —, com poucos ensaios controlados; para outras condições, é mais limitada ou ainda em construção.

O que é a Terapia do Esquema?

A Terapia do Esquema propõe que certos padrões de pensamento, emoção e comportamento — repetidos em diferentes relacionamentos e situações ao longo da vida — têm origem em necessidades emocionais não atendidas de forma suficiente ou consistente na infância. Esses padrões são chamados, no modelo, de esquemas iniciais desadaptativos, detalhados adiante.

A pergunta central deste artigo é: por que alguém consegue entender racionalmente que um comportamento lhe faz mal, e mesmo assim continua repetindo o mesmo padrão? Segundo a formulação da Terapia do Esquema, isso acontece porque esses padrões não vivem apenas no nível do raciocínio — envolvem também emoções, sensações corporais e memórias, ativados de forma automática diante de situações que lembram, ainda que sutilmente, experiências mais antigas. É uma explicação do modelo teórico, não uma afirmação sobre processamento cerebral comprovada por neurociência — distinção que vale para todo o artigo.

Alguns exemplos cotidianos, puramente fictícios e ilustrativos: alguém que se envolve repetidamente com parceiros emocionalmente indisponíveis — não por falta de discernimento, mas porque essa dinâmica, mesmo dolorosa, é familiar de um jeito que outra não seria; alguém que sente que precisa agradar todo mundo, com medo de que qualquer desagrado leve à rejeição; alguém que reage com intensidade desproporcional a uma crítica pequena, porque o comentário ativou algo além da situação presente; alguém que evita pedir ajuda mesmo desejando, no fundo, ser cuidado.

Esses exemplos são ilustrações genéricas — não diagnósticos. O mesmo comportamento pode ter origens e funções diferentes em pessoas diferentes: evitar pedir ajuda pode proteger de uma decepção específica em alguém, e em outra ser só um valor familiar sobre autossuficiência, sem nada de patológico. A Terapia do Esquema não presume que todo padrão repetitivo indique um esquema desadaptativo — oferece uma lente para investigar, caso a caso, quando isso parece estar acontecendo.

De onde vem: a extensão da TCC proposta por Jeffrey Young

Jeffrey Young é psicólogo americano, formado em Yale, com estudos pós-doutorais sob supervisão de Aaron Beck — criador da Terapia Cognitiva — na Universidade da Pensilvânia. Dessa formação, dentro da tradição cognitiva beckiana, Young passou a desenvolver, no final dos anos 1980, um modelo voltado a pacientes com transtornos de personalidade e padrões emocionais crônicos.

Vale evitar uma narrativa simplista: não é “a TCC não funcionava, e Young criou algo melhor”. A literatura sobre a história do modelo (Blackwell & Heidenreich, 2021) descreve algo mais específico — a TCC do final dos anos 1980 partia de pressupostos, como a expectativa de aliança terapêutica formada rapidamente e engajamento em reestruturação cognitiva sobre crenças relativamente acessíveis, que nem sempre se sustentavam com pacientes de transtornos de personalidade. Diante disso, Young propôs uma extensão do modelo cognitivo, incorporando teoria do apego, Gestalt-terapia, psicodinâmica e teoria do desenvolvimento — sem abandonar a base cognitivo-comportamental.

O marco documental dessa origem é Cognitive Therapy for Personality Disorders: A Schema-Focused Approach (Young, 1990) — o título já indica uma abordagem “focada em esquema” dentro da terapia cognitiva, não uma escola concorrente. O modelo foi consolidado como “Schema Therapy” em Schema Therapy: A Practitioner’s Guide (Young, Klosko & Weishaar, 2003), principal referência técnica da área até hoje. Vale uma ressalva: a TCC de referência de Young no fim dos anos 1980 é bem diferente da praticada hoje, muito mais heterogênea — com protocolos por transtorno e as chamadas terapias de “terceira onda”, que já trazem forte ênfase em emoção (retomado na seção 06).

A International Society of Schema Therapy (ISST) só foi fundada em 2008 — quase vinte anos depois do primeiro livro de Young. Neste site, a Terapia do Esquema é uma abordagem que venho incorporando à minha prática, como formação em andamento pelo Instituto Wainer, complementar à base já consolidada em TCC — sem se tratar de especialização concluída, distinção que considero importante manter transparente.

Necessidades emocionais básicas

O modelo de Young parte da premissa de que existem necessidades emocionais universais na infância, cuja satisfação suficiente e razoavelmente consistente importa para um desenvolvimento psicológico saudável. Na formulação de Young, Klosko e Weishaar (2003) — a mesma adotada pela ISST —, são cinco: vínculo seguro com os outros (segurança, estabilidade, cuidado, aceitação, amizade e pertencimento); autonomia, competência e senso de identidade; liberdade para expressar necessidades e emoções válidas; espontaneidade e brincadeira; e limites realistas e autocontrole.

Essa lista é a formulação clássica e mais amplamente aceita. Uma proposta mais recente (Edwards et al., 2021) sugere duas necessidades adicionais — autocoerência e senso de justiça —, mas os próprios autores reconhecem que esses construtos ainda não foram validados empiricamente. Tratamos aqui as cinco necessidades clássicas como referência estabelecida, e a extensão como debate teórico em curso.

Frustrações pontuais fazem parte de qualquer infância e não são, por si só, o problema. Segundo o modelo, é a frustração crônica, o trauma, a satisfação excessiva/indulgente, ou a internalização de padrões vividos em casa que podem — de forma probabilística, moderada pelo temperamento inato e por experiências posteriores — contribuir para a formação dos esquemas. O modelo evita, deliberadamente, formulações do tipo “se os pais fizerem X, a criança desenvolverá o esquema Y” — a relação proposta é de fator de risco, não de causa determinística.

Esquemas iniciais desadaptativos

Um esquema inicial desadaptativo é definido (Young, Klosko & Weishaar, 2003; ISST) como um padrão amplo e generalizado — de memórias, emoções, cognições e sensações corporais — relativo a si mesmo e aos relacionamentos com os outros, desenvolvido na infância ou adolescência, elaborado ao longo da vida, e disfuncional em grau significativo. Note os quatro componentes citados — inclusive sensações corporais — que fazem o modelo tratar um esquema como algo mais amplo do que uma simples crença.

Segundo o modelo, esquemas tendem a se perpetuar por três mecanismos: a pessoa interpreta informações novas de um jeito que confirma o esquema, mesmo quando objetivamente não confirmam; age de formas que recriam, sem intenção, as condições que o alimentam; e as próprias estratégias de enfrentamento — a seguir — que protegem no curto prazo acabam dificultando a correção no longo prazo. Um esquema fica latente até ser ativado por uma situação atual que se assemelha, estrutural ou emocionalmente, à experiência original que contribuiu para sua formação.

Young catalogou originalmente 18 esquemas, em cinco domínios amplos. Não é objetivo deste artigo listá-los de forma exaustiva — a formulação clínica não se resume a “descobrir qual é o seu esquema” —, mas alguns exemplos ilustram a variedade: abandono/instabilidade (expectativa de que relações importantes vão se romper), privação emocional (sensação crônica de que necessidades não serão supridas), defectividade/vergonha (sentimento nuclear de ser inadequado) e subjugação (entrega excessiva de controle para evitar conflito).

Estratégias de enfrentamento. Diante de um esquema ativado, o modelo descreve três respostas típicas — não “personalidades” diferentes, mas formas distintas de lidar com o desconforto:

  • Render-se: aceita o esquema como verdadeiro e age de forma consistente com ele — como alguém com esquema de subjugação que se submete repetidamente aos desejos de outra pessoa.
  • Evitar: organiza a vida, consciente ou não, para não ativar o esquema.
  • Supercompensar: pensa, sente e age de um jeito oposto ao conteúdo do esquema, como forma de contra-atacá-lo — como alguém com esquema de defectividade que se torna excessivamente perfeccionista.

A mesma pessoa pode usar estratégias diferentes em momentos diferentes, ou mesmo diante do mesmo esquema — o que leva ao próximo conceito.

Modos esquemáticos: esquema não é a mesma coisa que modo

Esta é uma das distinções mais importantes do modelo — e também uma das mais mal-entendidas fora do contexto clínico.

Esquema é uma estrutura relativamente estável — algo próximo de um traço —, presente de forma latente mesmo quando não está ativa. Modo, por sua vez, é o estado emocional e comportamental que domina temporariamente o pensamento, o sentimento e o comportamento de uma pessoa — resultado da combinação entre um ou mais esquemas ativados e a estratégia de enfrentamento correspondente naquele instante. Enquanto o esquema é relativamente contínuo, o modo é passageiro: pode durar minutos ou horas, e a pessoa “entra e sai” dele ao longo de um mesmo dia.

O modelo organiza os modos em quatro famílias: modos de criança (vulnerável, zangada, feliz/saudável), modos de enfrentamento disfuncional (espelhando as três estratégias acima — complacente-submisso, protetor desligado/evitativo, ou de supercompensação, como o autoengrandecedor), modos parentais disfuncionais (vozes internas críticas ou exigentes, internalizadas de figuras significativas) e o Adulto Saudável — o modo que o tratamento busca fortalecer, capaz de cuidar da criança vulnerável, conter a criança zangada e regular os demais modos.

Um exemplo fictício e ilustrativo: imagine alguém que recebe uma crítica pontual do parceiro — algo pequeno, como um comentário sobre estar distraído durante uma conversa. Segundo o modelo, esse comentário pode ativar um esquema de defectividade ou de abandono já existente, gerando uma sensação de inadequação ou rejeição iminente — o modo de criança vulnerável. A partir daí, a mesma pessoa pode responder de formas bem diferentes, dependendo de qual estratégia predominar: atacar de volta (supercompensação), afastar-se em silêncio (evitação), ou se desculpar excessivamente para reparar a situação (rendição). Cada resposta tem consequências interpessoais diferentes e tende a reforçar o padrão original — o parceiro pode se afastar diante do ataque, ficar confuso diante do silêncio, ou se acostumar ao apaziguamento excessivo, alimentando de volta o esquema que iniciou a sequência.

  1. 01Gatilho atual
  2. 02Modo ativado
  3. 03Estratégia de enfrentamento
  4. 04Resposta/comportamento
Uma sequência situacional descrita pelo modelo — não uma regra fixa: o mesmo gatilho pode ativar modos diferentes em pessoas diferentes, e a mesma pessoa pode responder de formas diferentes em momentos diferentes.

Modos não são “personalidades diferentes” nem indicam, por si só, qualquer tipo de dissociação patológica. São descritos pelo modelo como estados emocionais que qualquer pessoa pode experimentar, com maior ou menor intensidade — a diferença clínica está em quão rígidos, intensos e desconectados de uma resposta mais integrada (o Adulto Saudável) esses estados costumam ser.

Terapia do Esquema × TCC: onde se sobrepõem e onde se diferenciam

Terapia do Esquema e TCC não são abordagens rivais. A literatura relativamente consensual descreve a Terapia do Esquema como extensão integrativa da TCC — combinando a base cognitivo-comportamental com elementos de teoria do apego, Gestalt-terapia e psicodinâmica em torno de uma estrutura teórica coerente, não como um conjunto solto de técnicas emprestadas.

Algumas simplificações comuns merecem ser evitadas por serem imprecisas. Não é correto dizer que “a TCC trabalha o presente e a Terapia do Esquema trabalha o passado” — a TCC sempre considerou a história de desenvolvimento na formulação de crenças centrais (o próprio Beck escreveu sobre esquemas de longo prazo em transtornos de personalidade). Também não é correto dizer que “a TCC trabalha pensamentos e a Terapia do Esquema trabalha emoções” — a TCC contemporânea, sobretudo as abordagens de “terceira onda”, já dá grande ênfase a emoção e regulação emocional. E não é correto afirmar que a Terapia do Esquema é simplesmente “mais profunda” — isso é retórica de marketing, não descrição técnica.

O que de fato distingue as duas é uma questão de ênfase, mais do que de território exclusivo: no desenvolvimento dos padrões, a TCC considera a história na formulação do caso, e a Terapia do Esquema sistematiza esse olhar como parte contínua do tratamento; nas necessidades emocionais, a Terapia do Esquema organiza boa parte da conceitualização em torno delas; na relação terapêutica está uma das diferenças mais concretas — a TCC padrão adota postura colaborativa e didática, com distância profissional convencional, enquanto a Terapia do Esquema introduz a reparentalização limitada (seção 07) como uso mais deliberado da relação; nas técnicas experienciais, a Terapia do Esquema dá peso estrutural maior a elas, embora a própria TCC contemporânea venha incorporando ferramentas como o trabalho de cadeiras; e o vocabulário de modos esquemáticos é formulação específica do modelo, sem equivalente direto na TCC tradicional.

Parte da literatura (Blackwell & Heidenreich, 2021) situa a Terapia do Esquema no movimento mais amplo de reformulação da TCC — às vezes chamado de “terceira onda”. Essa classificação não é unânime: outras revisões a descrevem simplesmente como abordagem complementar baseada em evidências. Não há consenso fechado — é uma leitura possível, não um fato estabelecido.

Minha prática tem como base a Terapia Cognitivo-Comportamental, complementada pelo estudo da Terapia do Esquema — não como substituição, mas como ampliação de repertório para situações em que padrões mais estruturais parecem estar em jogo.

O que a Terapia do Esquema acrescenta: as técnicas experienciais

Além das técnicas cognitivas e comportamentais compartilhadas com a TCC, a Terapia do Esquema dá peso estrutural a técnicas experienciais — que trabalham diretamente a experiência emocional vivida na sessão, não só o relato dela. Uma distinção vale para todas as técnicas abaixo: ser elemento central do modelo teórico não é o mesmo que ter eficácia isolada comprovada. A maioria dos ensaios de Terapia do Esquema testa o pacote completo de tratamento, não cada componente isolado.

Imagery rescripting. O paciente acessa, em imaginação, uma memória perturbadora e, guiado pelo terapeuta, introduz uma mudança na cena. É essencial entender o que a técnica não faz: não altera fatos históricos, nem produz uma versão “verdadeira” alternativa do ocorrido. Segundo a formulação teórica sobre seu funcionamento (Mancini & Mancini, 2018), trabalha-se o significado emocional da memória — não o conteúdo factual (retomado na seção 12). Existe literatura relativamente robusta sobre a técnica isolada, mas majoritariamente fora do contexto específico da Terapia do Esquema — em TEPT, fobia social e depressão —, não em ensaios que isolem o componente dentro do pacote de Terapia do Esquema.

Chair work (técnica das cadeiras). Com raízes na Gestalt-terapia, promove diálogos — por exemplo, entre o modo crítico interno e a criança vulnerável. Uma revisão sistemática recente encontrou sustentação empírica para seu uso em diferentes condições, mas a maior parte dos estudos testou a técnica embutida em outras abordagens, não isolada — os autores reconhecem que, nesses casos, não é possível isolar sua contribuição específica.

Reparentalização limitada. Descrita pela ISST como um dos elementos mais distintivos do modelo. O terapeuta não substitui os pais do paciente, nem assume papel parental literal. Dentro dos mesmos limites éticos e profissionais de qualquer prática clínica responsável, busca oferecer, de forma deliberada e calibrada, experiências relacionais que podem ter faltado no desenvolvimento — consistência, validação emocional genuína, limites firmes quando necessário. O objetivo não é criar ou sustentar dependência: é que esse uso deliberado da relação trabalhe necessidades e padrões relacionais, favorecendo progressivamente mais autonomia e o fortalecimento do Adulto Saudável. Não foram localizados ensaios que permitam estimar isoladamente a contribuição específica da reparentalização limitada para os resultados do tratamento.

Confrontação empática. Apesar do nome, não é confrontação agressiva. Combina validação genuína da origem histórica de um padrão de enfrentamento — reconhecendo que ele, em algum momento, cumpriu uma função protetora — com um retorno direto, porém gentil, sobre como esse mesmo padrão causa problemas hoje. Como a reparentalização limitada, não localizei estudos que a isolem especificamente.

Conclusão desta seção: essas quatro técnicas são elementos centrais e bem descritos do modelo — mas atribuir a elas, isoladamente, os resultados dos estudos de eficácia da Terapia do Esquema como um todo é inferência que a evidência atual não sustenta.

Como é uma sessão, na prática

O exemplo a seguir é inteiramente fictício e ilustrativo — não um roteiro fixo, mas útil para conectar os conceitos apresentados.

Imagine alguém que chega à terapia relatando um padrão repetido: percebe que, em relacionamentos, tende a entrar em dinâmicas nas quais sente que suas necessidades não são consideradas — mas só percebe isso depois de já estar profundamente envolvida. Um ponto de partida possível é explorar uma situação recente e concreta: o que aconteceu, o que a pessoa sentiu, que pensamentos passaram pela cabeça. Daí, o trabalho pode identificar o padrão que se repete em outros momentos da vida e formular, de forma colaborativa — não como rótulo definitivo —, uma hipótese sobre qual esquema pode estar envolvido, por exemplo privação emocional ou subjugação.

Esse processo costuma envolver uma exploração cuidadosa da história pessoal relacionada — não para “encontrar um culpado”, mas para compreender como essa forma de lidar com as próprias necessidades emocionais começou a se organizar. Pode fazer sentido nomear qual modo tende a ser ativado (a criança que teme não ser considerada, por exemplo) e qual estratégia de enfrentamento a pessoa costuma usar — talvez a resignação, aceitando repetidamente relações desequilibradas. O trabalho busca então conectar esse padrão à necessidade emocional por trás dele, e construir, aos poucos, formas mais saudáveis de reconhecê-la e expressá-la — fortalecendo a capacidade de responder a partir de um lugar mais integrado (o Adulto Saudável), em vez de repetir automaticamente o padrão antigo.

Essa sequência é uma ilustração simplificada — o processo real é mais lento, não-linear e específico para cada pessoa e cada história.

Para quem a Terapia do Esquema foi desenvolvida

Historicamente, a Terapia do Esquema foi desenvolvida com foco em transtornos de personalidade e em padrões emocionais e relacionais crônicos que não haviam respondido suficientemente a formas mais padronizadas de TCC — e é essa também a população com o maior volume de pesquisa até hoje, sobretudo o Transtorno de Personalidade Borderline, detalhado na próxima seção.

Isso não significa que a abordagem “serve para tudo”. Quando a evidência é mais robusta, isso é dito explicitamente; quando é mais preliminar, também; e quando praticamente não existe evidência controlada localizada (por exemplo, para depressão ou ansiedade como quadros isolados), isso é igualmente declarado — o que é diferente de afirmar que a abordagem não funciona: significa apenas que a pesquisa disponível ainda não permite essa conclusão.

O que a ciência diz sobre a eficácia

Esta seção é propositalmente mais técnica — se preferir, siga direto para a próxima.

A condição mais estudada é o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). O ensaio mais citado é o de Giesen-Bloo e colaboradores (2006): estudo randomizado multicêntrico com 88 pacientes, comparando Terapia do Esquema com Psicoterapia Focada na Transferência por três anos, com taxas de recuperação e permanência no tratamento maiores no grupo de Terapia do Esquema. É relevante, mas com duas limitações: o comparador não foi a Terapia Comportamental Dialética (DBT) — uma das abordagens com maior corpo de evidência para TPB —, e o estudo foi conduzido pelo mesmo grupo que desenvolveu o modelo, levantando possível viés de “allegiance” (a tendência, documentada na pesquisa em psicoterapia, de pesquisadores relatarem resultados mais favoráveis à abordagem que eles próprios criaram).

Revisões mais amplas são mais cautelosas. A meta-análise de Cristea e colaboradores (2017, JAMA Psychiatry), com 33 ensaios, encontrou que apenas DBT e abordagens psicodinâmicas foram consistentemente superiores a controle — a Terapia do Esquema não se destacou. A Cochrane de Storebø e colaboradores (2020), com 75 ensaios e mais de 4.500 participantes, incluiu apenas 4 estudos de Terapia do Esquema, sem análise de subgrupo conclusiva. E Stoffers-Winterling e colaboradores (2022) chegam a conclusão semelhante: DBT e Terapia Baseada em Mentalização reúnem o maior suporte isolado para TPB. Ainda assim, uma meta-análise específica sobre Terapia do Esquema (Zhang et al., 2023), com 8 ensaios controlados e 7 sem grupo-controle, relatou efeito moderado sobre sintomas de personalidade — mas quase metade dos estudos não tinha grupo-controle, o que limita a conclusão.

Para outros transtornos de personalidade — principalmente Cluster C (evitativo, dependente, obsessivo-compulsivo), mas também casos histriônicos e narcisistas —, o principal estudo é o de Bamelis, Evers, Spinhoven e Arntz (2014): ensaio multicêntrico com 323 pacientes, o maior e mais bem controlado da área, comparando Terapia do Esquema individual, Psicoterapia Clarificação-Orientada e tratamento usual por três anos, com recuperação significativamente maior e menor abandono no grupo de Terapia do Esquema — embora medidas de auto-relato tenham sido menos consistentes que entrevistas estruturadas por avaliadores.

Um ponto especialmente importante, justamente porque impede leitura promocional deste artigo: um ensaio recente e robusto (Kopf-Beck et al., 2024) testou a Terapia do Esquema para depressão, comparando-a com TCC e terapia de apoio, em internação/hospital-dia. O resultado foi não-inferioridade frente à TCC, mas sem superioridade sobre a terapia de apoio, contrariando a expectativa inicial dos pesquisadores — reforçando que a Terapia do Esquema não deve ser apresentada como superior por padrão, mesmo fora do contexto para o qual foi originalmente desenvolvida.

O NICE (órgão britânico de referência em diretrizes de saúde), na diretriz sobre TPB, cita a “terapia focada em esquema” apenas nas recomendações para pesquisas futuras — não como tratamento de primeira linha. É diretriz de 2009, sem revisão substantiva desde então — não reflete necessariamente a literatura publicada depois, mas também não deve ser omitida como posição oficial vigente.

Em resumo: os estudos disponíveis sugerem que a Terapia do Esquema tem respaldo científico para transtornos de personalidade, com evidência mais consistente para TPB e Cluster C — ainda que o volume de ensaios seja pequeno, as amostras modestas, e exista concentração de autoria nos grupos que desenvolveram o modelo. A evidência é mais limitada, e ainda não permite conclusões firmes, fora desse contexto.

É uma terapia sobre a infância? Isso significa culpar os pais?

Uma dúvida comum e legítima, que merece resposta evitando dois extremos: nem “tudo vem da infância”, nem “a infância não importa”.

A Terapia do Esquema considera que experiências precoces podem ser relevantes para compreender como determinados padrões se organizaram — bem diferente de reduzir qualquer dificuldade atual a um único fator, ou tratar a infância como destino. O modelo enfatiza que a formação de um esquema depende da interação entre vários elementos: temperamento inato, experiências precoces dentro e fora da família, qualidade das relações ao longo da vida, ambiente, cultura e experiências posteriores, que podem reforçar ou ajudar a corrigir um padrão. Reduzir tudo a “o que os pais fizeram” ignora essa complexidade.

O objetivo de investigar a história de desenvolvimento não é encontrar culpados. É compreender como um padrão que hoje parece automático e, muitas vezes, desproporcional à situação presente, fez sentido em algum momento da vida — e, a partir dessa compreensão, construir formas mais adaptativas de responder às necessidades emocionais no presente. Pais são pessoas com suas próprias limitações e circunstâncias, muitas vezes fazendo o melhor que conseguiam dentro do que sabiam e tinham disponível. Reconhecer que necessidades emocionais não foram suficientemente atendidas não é o mesmo que atribuir intenção de causar dano, nem exclui outros fatores — sociais, culturais, de temperamento — que também participam dessa formação. E falar sobre a infância não é obrigatório em toda sessão, nem pré-requisito para começar: é um recurso disponível quando parece relevante, não um roteiro fixo.

A técnica muda o passado?

Essa pergunta costuma surgir quando as pessoas ouvem falar de imagery rescripting — a técnica de “reescrever”, em imaginação, uma cena de memória perturbadora, descrita na seção 07.

A resposta, com todo o rigor que este ponto exige, é não. A técnica não altera fatos históricos, nem pretende produzir uma versão “verdadeira” alternativa do que de fato aconteceu. O que ela busca trabalhar — segundo a formulação teórica sobre seu funcionamento (Mancini & Mancini, 2018) — é o significado emocional atribuído àquela memória, dentro do espaço imaginativo da sessão. A pessoa segue sabendo, racionalmente, que o evento ocorreu como ocorreu; o que pode mudar é como a lembrança é sentida hoje — deixando, por exemplo, de significar “eu era indefeso e sozinho para sempre” e passando a incluir a presença de um recurso que, na cena original, não estava disponível.

Vale frisar: ainda não sabemos, com certeza empírica definitiva, exatamente como e por que essa mudança de significado produz os efeitos observados — existem modelos teóricos concorrentes tentando explicar esse mecanismo, e este artigo optou por apresentar um deles, sem afirmar que a questão está cientificamente resolvida.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre TCC e Terapia do Esquema?

A Terapia do Esquema nasceu como extensão da TCC, não como concorrente. A diferença é de ênfase: sistematiza o trabalho com a origem dos esquemas, dá mais peso a técnicas experienciais e à reparentalização limitada, e usa o vocabulário de modos — elementos não centrais na TCC tradicional, embora a TCC contemporânea também trabalhe emoção e história de desenvolvimento.

Terapia do Esquema é indicada apenas para transtornos de personalidade?

Foi originalmente desenvolvida para esse fim, e é onde existe mais evidência — sobretudo para o Transtorno de Personalidade Borderline. Não significa que só sirva para isso, mas a evidência para outras condições, como depressão isolada, ainda é limitada e, em pelo menos um estudo recente, não mostrou superioridade sobre outras formas de tratamento.

Quanto tempo dura a Terapia do Esquema?

Não há número fixo — varia conforme gravidade, objetivos e resposta individual. Os estudos de maior peso (Giesen-Bloo, Bamelis) acompanharam pacientes por até três anos, sugerindo um processo tipicamente de médio a longo prazo para padrões de personalidade mais estruturais.

Preciso falar sobre minha infância?

Não é obrigatório em toda sessão, nem pré-requisito para começar. É um recurso útil quando ajuda a compreender a origem de um padrão — o objetivo é entender a organização atual do problema, não “encontrar culpados”.

O que são esquemas?

Padrões amplos e relativamente estáveis, de memórias, emoções, pensamentos e sensações corporais sobre si e os relacionamentos, que se desenvolvem a partir da interação entre temperamento e experiências precoces, incluindo a forma como necessidades emocionais básicas foram atendidas — segundo a formulação do modelo.

O que são modos?

Estados emocionais e comportamentais momentâneos, que predominam quando um ou mais esquemas são ativados junto com uma estratégia de enfrentamento. Diferem dos esquemas por serem passageiros, não estruturas fixas — e não representam “personalidades diferentes”.

Terapia do Esquema tem evidência científica?

Sim, mas concentrada em transtornos de personalidade, com poucos ensaios controlados. É mais consistente para o Transtorno de Personalidade Borderline e outros transtornos de personalidade, e mais limitada para outras condições — os detalhes estão na seção sobre eficácia.

Terapia do Esquema pode ser feita online?

Este artigo não revisou especificamente a literatura sobre formato online da Terapia do Esquema, então prefiro não afirmar algo categórico aqui. De forma mais geral, diversas modalidades de psicoterapia têm formatos online com resultados comparáveis aos presenciais em certos contextos — vale conversar isso em uma avaliação inicial.

Referências científicas

  1. Young, J. E. (1990). Cognitive Therapy for Personality Disorders: A Schema-Focused Approach. Sarasota, FL: Professional Resource Press.
  2. Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner’s Guide. Nova York: Guilford Press.
  3. Blackwell, S. E., & Heidenreich, T. (2021). Cognitive Behavior Therapy at the Crossroads. International Journal of Cognitive Therapy, 14(1), 1–22. DOI: 10.1007/s41811-021-00104-y.
  4. Edwards, D. J. A., Arntz, A., Chan, E., Fassbinder, E., Karaosmanoglu, A., Lee, C. W., & Panzeri, M. (2021). Towards a Reformulated Theory Underlying Schema Therapy: Position Paper of an International Workgroup. Cognitive Therapy and Research. DOI: 10.1007/s10608-021-10209-5.
  5. Giesen-Bloo, J., van Dyck, R., Spinhoven, P., van Tilburg, W., Dirksen, C., van Asselt, T., Kremers, I., Nadort, M., & Arntz, A. (2006). Outpatient Psychotherapy for Borderline Personality Disorder: Randomized Trial of Schema-Focused Therapy vs Transference-Focused Psychotherapy. Archives of General Psychiatry, 63(6), 649–658. DOI: 10.1001/archpsyc.63.6.649. PMID: 16754838. PubMed.
  6. Bamelis, L. L. M., Evers, S. M. A. A., Spinhoven, P., & Arntz, A. (2014). Results of a Multicenter Randomized Controlled Trial of the Clinical Effectiveness of Schema Therapy for Personality Disorders. American Journal of Psychiatry, 171(3), 305–322. DOI: 10.1176/appi.ajp.2013.12040518. PMID: 24322378. PubMed.
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  9. Stoffers-Winterling, J. M., Storebø, O. J., Kongerslev, M. T., et al. (2022). Psychotherapies for borderline personality disorder: a focused systematic review and meta-analysis. The British Journal of Psychiatry. DOI: 10.1192/bjp.2021.204. PMID: 35088687. PubMed.
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  12. Mancini, A., & Mancini, F. (2018). Rescripting Memory, Redefining the Self: A Meta-Emotional Perspective on the Hypothesized Mechanism(s) of Imagery Rescripting. Frontiers in Psychology, 9, 581. DOI: 10.3389/fpsyg.2018.00581.
  13. Ottingerová, L., Halamová, J., & Szitás, D. (2026). Experiential therapies including Chairwork: a systematic review of randomized controlled trials. Frontiers in Psychology, 16. DOI: 10.3389/fpsyg.2025.1692630.
  14. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Borderline personality disorder: recognition and management. Clinical Guideline CG78 (2009, sem revisão substantiva desde então). Acessar diretriz.

Entender um padrão que se repete já é um passo importante

Se este artigo te ajudou a reconhecer algo — em você ou em alguém próximo —, uma conversa inicial pode ajudar a esclarecer os próximos passos possíveis.

Thiago Vendramini, psicólogo clínico — CRP 06/100934. Minha prática tem como base a Terapia Cognitivo-Comportamental; venho complementando essa formação com o estudo da Terapia do Esquema, atualmente em andamento pelo Instituto Wainer.

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